Há queijos que são apenas comida, e há queijos que contam histórias. No nosso Sítio, cada rodela de queijo maturado não carrega apenas a técnica molecular do leite; ela carrega a herança de uma família inteira e a alma de uma região moldada pelo trabalho.
Muitos olham para os nossos queijos sofisticados, de cura longa, e veem a influência dos mestres queijeiros holandeses e dinamarqueses que se estabeleceram em Aiuruoca no século passado. É fato: suas técnicas refinadas de cura e os costumes de cuidar do leite moldaram muitas das nossas famílias tradicionais. Essa "escola do frio" europeia nos deu a base para o controle da temperatura e a paciência na maturação.
Mas a técnica, por si só, é fria. Ela precisa de um ingrediente que não se compra: o amor pelo que se faz. E é aqui que a nossa história se torna profundamente pessoal.
Este artigo é uma homenagem a duas pessoas que representam a essência desse amor e desse trabalho: meu cunhado, Joaquim (em memória), e sua esposa, Simone.
Ao olhar para a foto deles rindo, ninguém imagina a rotina de aço que sustentava aquela alegria. Joaquim era um gigante no trabalho. Muitos dizem que ele "ganhou muito dinheiro com queijo", e é verdade. Mas dinheiro nenhum paga a jornada de levantar às 3 da manhã, faça chuva, geada ou o frio intenso da nossa Mantiqueira, para buscar o gado no pasto.
Não havia tempo ruim. Enquanto muitos ainda dormiam, Joaquim já estava na lida, garantindo que o leite chegasse perfeito para o laticínio. E essa força não estava sozinha. Simone, sua parceira de vida e de luta, estava ao seu lado. A jornada deles muitas vezes só terminava às 7 horas da noite. Era um ciclo de 16 horas de dedicação pura, todos os dias.
Essa força, esse "sangue nos olhos" para trabalhar, é o que tentamos honrar hoje. A tradição que começou com as técnicas europeias em Aiuruoca se misturou com a resiliência mineira de Joaquim e Simone.
Hoje, quando vejo minha esposa, minha filha e lembro-me com carinho da minha sogra (também em memória), vejo a continuidade dessa mesma chama. O queijo que produzimos não é apenas o resultado de saber controlar uma cura molecular. É o resultado de saber valorizar a história de quem abriu o caminho.
Cada peça que sai da nossa Tábua de Cura tem um pouco da paciência dinamarquesa, mas tem, acima de tudo, a força de quem levantava às 3 da manhã para que, hoje, pudéssemos ter a alegria de compartilhar essa arte com vocês.
A arte do queijo não se aprende só em livros; ela se vive na pele e no coração.
